Posts filed under ‘Cenas do Mundo Corporativo’

Histórias de Vendedor…

Alguns produtos da década de 80

Alguns produtos da década de 80

Nos anos 80, aquela era a empresa mais poderosa daquele segmento de mercado. Vendia muito, consumia muito. Possuía a melhor marca, a melhor distribuição, as melhores propagandas, o melhor produto… Era um sonho de consumo para as crianças por sua linha de produtos sensacional e também era um sonho de consumo para os vendedores de insumos para aquele segmento da industria alimentícia. Principalmente em um de seus principais insumos – Gordura Vegetal Hidrogenada.

Eu iniciava a minha carreira em vendas, com meus 25 anos de idade e poucos meses de área comercial. A carteira de clientes para as gorduras especiais que vendia, incluía esse ícone da Industria de Alimentos Nacional. A empresa que todos queriam como cliente, o maior consumidor, a empresa que criava as relações de longo prazo e de valor agregado. Não havia nenhum negócio com eles… estávamos “virgens” em vendas para essa empresa… minha missão era virar o jogo, tão logo quanto possível.

Meu Gerente era um obstinado. Como excelente relações públicas, conhecia todos as pessoas dessa empresa e havia iniciado um trabalho de aprovação dos nossos materiais para consumo antes de minha chegada para o atendimento. Especificações prontas, tudo aprovado, faltava acertar a parte comercial, o próximo passo. Era um exemplo clássico do ritual da venda complexa B2B em pleno funcionamento.

Chico, esse era o meu chefe, me levou para visitá-los e fazer a apresentação oficial do novo Vendedor Técnico Industrial que iria atendê-los. Eu, aquele garoto saído da Engenharia de Alimentos diretamente para o mundo comercial das relações B2B entre as maiores corporações globais de alimentos, estava um tanto tímido, mas muito entusiasmado com a novidade.

Visite o seu cliente!!

Visite o seu cliente!!

Chico afirmava entusiasticamente: “Você deve visitar regularmente os clientes. Eles não vão comprar na primeira ou segunda visita, mas se você continuar visitando, eles um dia vão comprar de você. Seja persistente.” Uma outra máxima que vinha regularmente das conversas com o Chico, era: “Fique consciente, atento e de olhos bem abertos; porque nos menores detalhes e em situações não esperadas é que pode estar a sua chance! Em uma visita de vendas, tudo o que acontece é importante! – Se liga, garoto!”

D. Marília (nome fictício) nos recebeu em sua sala. Uma senhora em seus mais de 30 anos de experiência como compradora. Uma simpatia e uma seriedade intocável nas relações comerciais. Fui apresentado a ela formalmente pelo Chico, que acrescentou um toque familiar pedindo a ela que me “ensinasse” como ser um bom vendedor para uma excelente compradora como ela… D. Marília limitou-se a sorrir e me desejar boa sorte, passando imediatamente a cobrar melhores preços para os produtos da nossa empresa. “Dessa forma, vocês nunca vão entrar! – dizia ela para o Chico – Seus produtos são absolutamente mais caros que a sua concorrência, não consigo ajudá-los! Vocês é que precisam me ajudar a tê-los como fornecedores.”

Chico também sorria e argumentava sobre os benefícios de nossos produtos, e sobre o benefício que essa grande empresa teria de não comprar apenas de nosso concorrente – um gigante da área de gorduras e óleos… Quase um monopólio. Quando falava sobre isso, recebia de volta o sorriso simpático daquela senhora elegante, firme e experiente. “Sim, eu gostaria de tê-los como fornecedor alternativo, mas preciso de sua ajuda para isso.” Assistir a esse “embate de Titãs” era um privilégio para mim. Recordo cada palavra e cada gesto dos dois mestres. Era como uma dança coreografada, como um duelo especial, onde mais valia o efeito visual e sonoro das espadas reluzentes em seu bailado, do que propriamente se haveria um golpe fatal proveniente de algum dos jogadores.

Diálogo de Mestres

Diálogo de Mestres

Tomamos o nosso café de despedida, já com todos os dados sobre volumes consumidos, aprovações técnicas já feitas e nenhuma informação concreta sobre preço referência ou condições comerciais interessantes para poder guiar a nossa tática de entrada. D. Marília despediu-se com um “Até logo, Sergio, venha me visitar sempre, mas traga bons preços!”

Visitei essa empresa em todas as semanas durante mais de 3 meses. Sempre a mesma história. Muita gentileza, nenhum negócio, nenhuma informação segura para que pudéssemos nos mover em relação à concorrência com mais segurança. Os preços de gorduras consideradas commodities nessa época eram conhecidos no mercado, sabíamos do preço médio de mercado, mas aparentemente as condições desse grande comprador eram extremamente especiais junto ao nosso principal concorrente- seu fornecedor exclusivo.

I love my clients

Depois de mais de 10 visitas de idas e vindas de preços e condições, D. Marília já conversava sobre vários assuntos comigo. Soube que ela estava próxima da aposentaria, que gostaria de mudar-se para o interior para curtir os seus netos. Fiquei também encantado com suas historias sobre os tempos heroicos em que ela comprava auto-peças para a DKW, tempos muito diferentes e difíceis, uma vez que uma empresa nacional de automóveis fazia barulho e incomodava os gigantes do setor. Eu fazia muitas perguntas e ela contou-me alguns detalhes sobre como era familiar o ambiente de negócios naquela época e de como eram os fechamentos de negócio, com base em confiança, relações pessoais fortes, ajuda mútua e contratos de “fio-de-bigode”. Também contou-me sobre a pressão das empresas gigantes sobre aquela pequena notável de automóveis que culminou com a venda da Companhia para a Volkswagen. Seus olhos ficavam brilhantes quando falava sobre o time de trabalho excelente que aquela “família” alcançou ser.

Ficamos “quase amigos” pois creio que D. Marília acabou adotando uma posição de “tutora” e conselheira para aquele pobre jovem vendedor que representava uma empresa que não conseguia ter preço adequado para fornecer para a empresa que ela representava…

Vale dizer que nessa altura das visitas,  já  havia perguntado muitas vezes uma referência de preço do concorrente para balizar nossa proposta, e D. Marília sempre “ralhava” comigo: “Menino, isso eu não te diria nunca! É uma informação confidencial.”

Um dia, em combinação com o Chico, apelei, avisando D. Marília que iria ser substituído em seu atendimento, pois o Chico estava cansado do custo de minhas visitas e da falta de negócios entre as duas empresas. Ela sorriu. Disse apenas que achava uma pena porque eu estava indo bem como vendedor.

Na visita seguinte, algo diferente aconteceu. D. Marília sempre me recebia em sua sala, com sua mesa limpa de papéis e sua ordem impecável e austera. Neste dia, sua secretária pediu-me para entrar na sala e a aguardar, pois ela estava terminando uma reunião com o seu Diretor e desceria em seguida para me atender. Um pouco surpreso, pois isso era anormal, entrei na sala e me acomodei na cadeira de visitantes.

surpresa-boa

Passaram-se alguns minutos em que eu divagava mentalmente sobre nada, até que me chamou a atenção que a mesa de D. Marília desta vez não estava vazia. Entre cadernos e uma calculadora, havia uma planilha caprichosamente desenhada deixada displicentemente aberta no centro da mesa. Agucei os olhos e verifiquei atentamente que a planilha enumerava todos os preços dos concorrentes (inclusive o nosso preço) de uma forma caprichosa, lado a lado, em cores diferentes fazendo uma comparação… Meu coração pulou pela boca! Não podia acreditar no que via.

D. Marília entrou na sala após alguns minutos mais, desculpou-se pela demora com o seu bom dia gentil e calmamente recolheu a planilha, a calculadora e os cadernos, guardando-os em sua primeira gaveta da escrivaninha. Passou a conversar naturalmente comigo e pediu para falar com o Chico, pois achava que era um absurdo nossa empresa não conseguir chegar a um termo correto para fornecer aquele item. Falamos sobre amenidades, mostrei a ela nossa nova oferta para as próximas cargas de gorduras – e ela novamente indicou que nossas condições ainda não eram boas. Tomamos café e fui embora.

Voltei para o escritório exultante e fizemos um milhão de contas depois de entender as condições especiais que aquele enorme comprador de gorduras possuía… Realmente eram condições muito especiais, mas com os volumes e com a garantia de fornecimento por um período correto, havia condições de acompanhar e iniciar o nosso fornecimento! Pudemos finalmente elaborar a proposta de forma correta. Chico conseguiu a aprovação das novas condições com o Diretor de nossa Divisão e elaboramos enfim o nosso bilhete de entrada para aquele fornecimento.

Voltei na semana seguinte com uma oferta completamente diferente, balizada pelas informações mais completas, muito mais ousada e devidamente aprovada para que pudéssemos entrar como fornecedores regulares para a empresa de D. Marília.

Ela ouviu a proposta silenciosamente, fez algumas contas mentalmente, sorriu e disse: “Vamos programar então algumas entregas já para a próxima semana. Agora você chegou onde deveria com as suas novas condições.”

negocio fechado

À partir dessas primeiras entregas, ficou claro o posicionamento de preços e condições para aquela empresa e passamos a dividir o fornecimento daquele importante insumo com o nosso principal concorrente.

D. Marília ficou feliz ao desenvolver seu fornecedor alternativo com parâmetros comerciais adequados e, de nossa parte, foi possível otimizar todos os preços de toda nossa linha de produtos, porque aquele fornecimento massivo nos dava um custo de fábrica muito mais adequado devido à massa critica que nossa produção alcançava então.

Foi um grande negócio, muito estratégico para o desenvolvimento dos negócios de nossa empresa nos seguintes anos.

Na próxima visita, Chico estava comigo para agradecer D. Marília sobre a sua paciência a respeito daquele novo vendedor. Disse também que estávamos muito orgulhosos ao finalmente iniciar o relacionamento comercial com eles. Recebemos novamente o tradicional sorriso educado de D. Marília: “Chico, ele é um bom garoto, observador e atento, além de gentil. A suas vendas aqui foram conquistadas por ele. Acho que fará uma boa carreira em vendas!”

child-namaste

Obrigado D. Marília e obrigado Chico!! Mestres queridos da arte da compra e da venda industrial.

SETUP Ouvidoria & Soluções

24/08/2015 at 12:08 2 comentários

Conferências Telefônicas – Armadilhas e Artimanhas

Imagem

Estamos em uma idade virtual, onde a troca do pessoal pelo distante não é opção, é realidade. Neste complexo, distâncias físicas desaparecem na facilidade do toque e do contato instantâneo, invasivo, até.

E assim, conferências telefônicas são instrumento de trabalho em substituição a longas jornadas e reuniões, na facilidade do imediato, no conforto do qualquer lugar serve.

O mundo do agora é racional. Esse contato instantâneo muitas vezes é considerado como suficiente para substituir totalmente o que antigamente (muito antigamente nos padrões de hoje) era feito apenas com o contato pessoal, frente a frente, olhar cruzando olhar, movimento interpretado como linguagem. Por vezes é esquecido que esta linguagem nova tem suas próprias singularidades e deve ser elaborada de forma profunda como era elaborado profundamente o contato direto e pessoal no passado não tão assim distante…

Surgem confusões e enganos. Atropelos e simplificações; más interpretações e vícios. Acredito que devemos reaprender o contato com estas ferramentas instantâneas. Reaprender como aprofundar relações interpessoais assim, à tanta distância…

A tecnologia e a mente racional voam a velocidade da luz, mas as verdades sobre como se relacionar com o outro seguem presentes, muito presentes, desviando um pouco a tão sonhada produtividade que a tecnologia nos trás.

Como são suas conferências telefônicas?? Por favor, assista ao vídeo anexo antes de responder.

http://www.youtube.com/watch?feature=youtu.be&v=DYu_bGbZiiQ&desktop_uri=%2Fwatch%3Fv%3DDYu_bGbZiiQ%26feature%3Dyoutu.be&app=desktop

31/01/2014 at 15:45 Deixe um comentário

Morte Branca

gestor e seu caminho

Os joelhos dançavam embaixo da mesa enquanto atentamente ouvia a apresentação. Os olhos seguiam a dança dos números e a sequência lógica do trabalho bem feito e envolvente no pacote bonito de uma apresentação vibrante. Gostava quando o assunto era assim, intrigante, desafiador. Divertia-se com apresentações imaginativas como aquela.

Fez as perguntas inteligentes que se esperavam dele e as observações precisas sobre pontos imprecisos. Assinalou oportunidades, falhas, consequências. Marcou o valor de sua contribuição ao ligar pontos ainda não conectados, ao pensar além. Dali sairiam bons e sólidos negócios.

Os joelhos ainda chacoalhavam ao final da sessão. Obrigados, sorrisos de praxe, cumprimentos comedidos, computadores sendo desconectados.

Dirigiu-se ao toalete. Sentiu em seu corpo algo branco, como um grande buraco. Um incomum buraco branco de ausência, de incompletude, de não sentir-se inteiro.

Branco assim como tela vazia, incompleto na cor mais completa das cores. Era branca sensação consciente de falta, de não ser bom o bastante. Um anseio, uma carência interna, um vazio sentido na mais íntima fibra de suas células.

Conquistara grandes vitórias. Contava propriedades, mulheres e sonhos realizados. Havia o surf do final de semana, o respeito de seus amigos, o clube de pôquer, as viagens… Havia ainda o sucesso de sua empresa, os caros presentes, os carros esportivos de ontem e de hoje.

Vislumbrava sempre os seus relacionamentos especiais, as suas grandes verdades e as suas grandes mentiras impregnadas de razões.

O branco invadiu o toalete.

Descobriu num átimo o grande apuro em que se encontrava. Subitamente era impossível seguir enganando a si próprio. Tentava agir como antes, assim como fizera durante a apresentação, mas já não era mais possível continuar. Simples assim.

Sentiu nos joelhos que enquanto os velhos padrões dirigissem sua vida, não poderia se sentir à vontade, não estaria em paz, não estaria por inteiro. Apesar dos fugazes momentos quando um novo desejo era satisfeito, não poderia jamais completar-se.

Seu  velho modelo necessita alimento e proteção todo o tempo, identifica-se com coisas externas como propriedades, status social, aparência física, relacionamentos, habilidades especiais, história pessoal, familiar, ideais políticos ou crenças religiosas. Disso se alimenta e cresce.

Descobriu no toalete que nada disso era ele mesmo. Descobriu o branco, descobriu o vazio.

Um susto-alívio invadiu-lhe a alma. Era o branco que secava sua boca e fazia tremer os joelhos. Já não poderia mais viver o modelo antigo.  Mais cedo ou mais tarde teria que abrir mão de todas essas coisas.

Sentiu que o branco era a morte. Conheceu a necessidade de despojar-se de tudo que não era ele mesmo; certamente  a mesma sensação que aparece no derradeiro suspiro de cada existência.

Que talvez o segredo da vida seja “morrer antes que você morra”.

E em seguida descobrir que também a morte não existe.

SETUP Ouvidoria & Soluções

setango@windowslive.com

30/6/2013

05/07/2013 at 15:10 Deixe um comentário

A Consciência do Agora

cafe-1A janela inundava o assunto de branco.

Vi seus traços confundidos no contra-luz. Uma denúncia tímida, buscando abrigo no ofuscar intenso da manhã de sol. Ao longe, árvores, cada vez menos. Esta vista de todo dia, em mistura de beleza e familiaridade.

Junto ao cheiro fresco de café bom brotou – entre a fumaça e as xícaras – a frase pertubadora e há muito escondida. Eternos segundos do bater da louça branca e o som do misturar adoçante. O cheiro-gosto do café era de expectativa intensa.

“Estou inseguro sobre o meu futuro…queria falar com você sobre isso.” Era uma frase fugida do calabouço da alma.

Na manhã radiante de verão, dava para contar as nuvens do céu em apenas uma das mãos. Via-se ao longe o rastro do avião distante na janela azul-branco-verde-árvore. O aroma negro inundava cérebros e corações em nuances, perfumes e sensações quente-delícia.

O relógio insistindo em andar, sina e missão tiquetaqueante.

relogio-111

Agenda, futuro, compromisso; será que não dá nem para tomar um cafezinho? “Não vai dar tempo!” “Será que ontem fizemos o que tínhamos que fazer para que amanhã dê tudo certo?” Sorviamos quietos o prazer negro fumegante – ouvíamos nitidamente o aroma invadindo a alma – apenas um olhar mais atento já denunciaria esta invasão fumegante.

Porém, foi visível a mudança de expressão quando o futuro tomou conta de seus pensamentos. Percebi sua consciência se esvaindo, fechando a entrada da janela de sol e do aroma do café. Seus olhos saíram do caminho, fugiram de casa. Nunca mais o prazer instantâneo daquele momento único entre nós.

Vivemos atrás ou avante de nosso momento presente na maior parte de nossa vida. Fugaz presente que negligenciamos a maior parte do nosso precioso tempo. Somos fugitivos de casa – saímos da consciência pensando no que foi ou no que será; enquanto passa o fluxo da vida com seus múltiplos reflexos coloridos e instantâneos.

Falo e escuto e já é passado – física. Porém podemos sempre olhar nos olhos o reflexo do momento presente. Um instantâneo.

A noção de tempo busca a retenção da vida. Tentamos congelar o fluir do rio, tentamos adivinhar, moldar ou evitar o caminho inexorável para o desconhecido futuro. Temos a falsa idéia que se pode controlar o que será, ou reviver o que já se foi. Passamos grande parte de nossa vida lutando para manter ou congelar o tempo.

O que temos é o fluxo. É a água que passa hoje pelo leito do nosso rio de vida. O que já passou não existe mais. O que será ainda não é, ou foi. Já dizia Heráclito que o rio nunca é o mesmo, sempre muda.

“Existe algum fato real para você estar preocupado?”

Foi como um resgate por bóia de um náufrago que se debatia. Voltaram seus olhos e vi a xícara refletida em suas pupilas. Novamente a claridade e o aroma estavam presentes.

“Não, ainda não aconteceu, mas pode acontecer…”

Conta Carl Jung que um chefe indígena norte-americano dizia que a maioria dos brancos apresentava rostos tensos, olhos assustados e um ar muito cruel. Dizia que aparentemente os brancos sempre estavam buscando alguma coisa e perguntava: “O que eles estão buscando?” Dizia este chefe que os brancos estavam sempre querendo alguma coisa, sempre agitados e descontentes. Realmente os índios não sabiam o que eles desejavam. Na verdade eles achavam que os brancos eram todos loucos.

Sabio

Preocupar-se diz tudo quando se divide em “pré” e em “ocupar-se”. Estamos tão ocupados com o futuro que perdemos a chance de realmente vivenciar o presente. Provavelmente estamos preocupados em demasia na maior parte dos segundos da nossa vida.

O tempo como o definimos é uma ilusão, já que foi criado para eternizar/aprisionar momentos, e isso soa como impossível. Quando nos deparamos com esta ilusão nos perguntamos o que fazer, já que estamos aprisionados e condenados a viver em um mundo absolutamente dominado pelo tempo.

Livrar-se da escravidão do tempo significa sair da dependência psicológica do passado ou do futuro. Esta provavelmente é a maior conquista que a consciência pode ter. A consciência do presente é rara em nós, seres humanos desta dimensão. Temos fugazes lampejos vez ou outra deste nível de consciência, a consciência do agora. Normalmente quando sofremos um grande baque psicológico, uma grande perda por exemplo, ou quando nos encontramos em meio à natureza e suas maravilhas, estamos conscientes do agora. Porém, normalmente apenas vivemos em níveis diferentes de inconsciência, onde nos aprisionamos em passado e futuro, sem ter a real presença no agora.

A inconsciência poderia ser definida como a identificação que temos com nossas emoções, desejos, reações, aversões e pensamentos. É o estado normal da maioria das pessoas neste mundo. É o estado em que somos governados por nossa mente, onde a presença do Ser não está consciente. Estes conceitos estão descritos por Eckart Tolle em seu livro “O Poder do AGORA”. É uma leitura fascinante, vale a pena.

o-poder-do-agora

De acordo a Tolle, o estado normal de inconsciência provoca uma espécie de “ruído de fundo”, que não poderia ser definida como sofrimento, mas sim como um desconforto básico, como uma irritação causada por um ruído contínuo que não percebemos existir até que ele pare, e aí temos a sensação de alívio que isso causa. Muitos usam a bebida, as drogas, a comida, o trabalho, o sexo e outros “entretenimentos” para aliviar o desconforto básico do estado normal de inconsciência. O uso contínuo destes artifícios funciona como um vício, e o alívio é cada vez mais curto quanto mais são usados. O agravamento do desconforto causa um nível mais profundo de inconsciência, onde o que antes era apenas desconforto passa a ser real sofrimento. É quando temos a sensação de que as coisas “vão mal” e que estamos ameaçados em nossa sobrevivência futura. Estamos então no estado de “preocupados”.

Diz também Tolle que a melhor maneira de medir o nível de consciência é a maneira como lidamos com os desafios da vida. Quando eles surgem, a tendência das pessoas inconscientes é se tornarem mais inconscientes, ao mesmo tempo que uma pessoa consciente torna-se ainda mais intensamente consciente. É uma lei natural.

Portanto, podemos encarar os desafios como oportunidades para enfim acordarmos mais a nossa consciência; ou então; podemos deixar que os desafios agravem o nosso grau de inconsciência. Corremos o risco de levar o nosso sono para níveis tão profundos que nossos sonhos podem facilmente tornar-se pesadelos. A inconsciência cada vez mais profunda gera reações de medo e tentativas cada vez mais desesperadas de auto-preservação. O sofrimento está então instalado em nossos seres.

Por outro lado, a consciência cada vez mais desperta, através da observação do que está ocorrendo, aqui e agora, em nosso corpo e em tudo que nos cerca a cada segundo, é o sinônimo da presença no agora e a possibilidade de melhor lidar com as coisas que, de forma ilusória, “vão mal”.

O café naquela manhã branca de luz foi uma inundação nas consciências. Deixou de fazer sentido conversar sobre passado/futuro apenas com a observação da realidade do aroma intenso. A luz era forte; o verde das árvores era espetacular; e o café era reconfortante.

O agora inundava o assunto de luz e a pergunta sobre o futuro era apenas uma ilusão.

IMG00098-20120727-1739

10/03/2013 at 22:42 6 comentários

Perfil dos Empreendedores Brasileiros

Perfil dos Empreendedores Brasileiros. País de gente fazedora!

11/02/2013 at 12:05 Deixe um comentário

Confúcio e os Acionistas

 

Imagem 

Zi-Lu perguntou: “Se o Mestre quisesse conduzir um grande exército, quem gostaria de ter a seu lado?” Confúcio respondeu: “Aquele que conseguisse derrubar um tigre com as mãos nuas, atravessar um rio sem barco e saltar para a morte sem delongas; este eu não traria comigo. Deveria ser alguém que ponderasse as coisas, que pusesse em prática, com cuidado e atenção, aquilo que planejou”.

O dito de Confúcio varou sua mente enquanto seus olhos dançavam pelos resultados do ano e pelas mensagens de Ano Novo recebidas de sua equipe. “Obrigado por sua orientação neste ano”; “Vamos ter um novo ano sensacional”; reluzia o email. “Muitas felicidades e realizações para você e sua família; conte novamente comigo neste novo ano!”

“Neste ano crescemos, mas foi pouco e não batemos a concorrência como deveríamos!” Uma voz interferiu em sua mente como uma freada brusca deixando o rastro dos pneus no asfalto.

 “Obrigado por ter sido este anjo em nossas vidas!” dizia outro email… Talvez exagero, mas muita emoção, certamente.

Claro e límpido, o plano inicial ressurgiu em sua mente. Plantar bases, criar uma equipe verdadeira, gigante por ser um grupo e não apenas bons indivíduos. Uma operação simples, um trabalho humano, elaborado carinhosamente por todos. Novos processos, desenhados por pessoas. Nova energia, cultivada por pessoas.

O bote furado sendo aos poucos substituído pelo barco tecnológico do rafting; em pleno movimento, com muito suor, água por todos os lados, Alguns gritando em aparente desordem, outros compreendendo rápido e agindo em silêncio na reparação do que esvazia a energia. Veio à sua mente o esforço e dedicação que somente a confiança pode alcançar. De repente o barco começa a navegar com mais sentido, com a direção correta, Yes!!

 Imagem

Confiança – Confúcio.

Segundo a sua filosofia, pode-se concluir que a tarefa mais importante do executivo é ser equilibrado. Isto tem a ver com o cultivo e a sustentação da confiança. Pode-se extrair, do que diz Confúcio, que uma cultura de confiança é um dos bens mais importantes que qualquer empresa pode ter; devendo ser valorizada e preservada por seus líderes. Sem confiança não existe a possibilidade de obter um desempenho verdadeiro por longo tempo.

“Deveríamos pisar no acelerador. Não é o suficiente, não temos tempo! Não podemos matar um leão por dia, tem que ser pelo menos dois” Martelava o curto prazo – nova freada marcando o chão.

Um relâmpago em sua mente ilumina os momentos do ano em que o grupo necessitou relembrar e reeditar conceitos básicos sobre bons modos, bons relacionamentos e cultivo da gentileza como tônica de trabalho e de desenvolvimento para todos os projetos. “O Caminho Dourado do Meio” de Confúcio.

 Imagem

“Quem segue por ele tem mais chances de alcançar suas metas, porque nele encontra muito menos inimigos que poderiam interferir em seus propósitos”.

Projetos começam a dar mais certo que antes. Mais produtividade, começamos a ganhar mais mercado. A mágica do caminho do meio. “Ninguém sabe bem o porquê, mas de repente ficou muito mais legal trabalhar aqui”…

Ainda na luz rápida do raio mental, vislumbrou o grupo de trabalho alcançando um balanço mais e mais estável em termos de relacionamentos – equilíbrio entre diversidade, personalidades, opiniões, ideologias, histórias, conquistas e interesses. Ficou gostoso conviver e discutir o negócio, ficou mais interessante criar em conjunto, renovar, conversar, inovar. Viu num relance alguns que deixaram o barco ao longo do caminho – de forma natural, sem drama, apenas porque aquele não era mais o barco onde se sentiam confortáveis.

 Imagem

Ouviu claramente o Mestre Confúcio: “Não faça amizades com quem não se parece com você. Se dois não concordam com o que é fundamental, é inútil fazerem planos juntos”.

Precisava escrever seu relatório anual para os acionistas. Sua mente vagou pelos que matam os tigres com as mãos nuas e agradam bastante aos acionistas a cada trimestre – mesmo que apenas por alguns trimestres, antes que os estragos de longo prazo comecem a cobrar a sua fatura de forma inexorável. Um modelo bastante atual, ainda. Pena.

Uma virtude importante da liderança é a paciência e este aspecto é infelizmente bastante negligenciado por grande parte dos líderes atuais. Entretanto, o sucesso duradouro deve ser construído durante muito tempo – Já dizia Confúcio há 2500 anos!

Confúcio ou Kung-Fu-Tse (551-479 a. C.):  Filósofo chave para entender a China (e também muitas outras nações orientais) de ontem, hoje e sempre. A Essência de seus ensinamentos fala do princípio da medida e do meio, com uma valorização inabalável das tradições históricas estabelecidas. Para ele, o princípio base para o desenvolvimento humano era a harmonia e a total consciência dos homens sobre os seus deveres em relação à sua família e ao Estado. Para ele, o nobre identifica o caminho e tenta dar um sentido positivo à vida, seguindo e vivendo em acordo a este caminho. Isto consiste na mais nobre forma de autodesenvolvimento humano. O mais alto estágio de desenvolvimento seria quando o indivíduo é a própria personificação do verdadeiro conhecimento e vive em acordo aos princípios básicos de uma vida verdadeira, sem se preocupar com vantagens pessoais. Neste caso, Nem mesmo uma ameaça à própria existência pode desviá-lo do caminho.

Escreveu várias linhas em seu relatório explicando a arrancada de sua equipe e a perspectiva de resultados muito consistentes ao longo do tempo. Nem mesmo acionistas ávidos para crescer no curto prazo podem desviar a sua verdade.

Mesmo que sua própria existência possa parecer ameaçada.

 

 Imagem

Fotos: Henrique Sottovia, Google images.

Revisão final: Valentina Monteiro

Referências bibliográficas:

– DROSDEK, Andreas: FILOSOFIA PARA EXECUTIVOS, A sabedoria de grandes filósofos aplicada ao dia a dia empresarial, Veros Editora, 183 pgs.

– Wikipedia

06/01/2013 at 12:36 Deixe um comentário

Raio Em Noite Quente

Imagem

As letras do Blog eram precisas e bem nítidas. Para ele, aquele cartão vermelho da foto de abertura da matéria era mais que um alerta:

“Recentemente o Grupo Empreenda, conceituada Consultoria empresarial de São Paulo, realizou uma pesquisa sobre as principais preocupações dos líderes empresariais hoje em relação ao seu futuro. Foi realizada com 201 profissionais no Brasil, entre os quais, 35% são presidentes ou líderes de empresas.

Quando perguntados sobre quais são os principais sintomas que atormentam suas empresas, 43,6% dos executivos responderam que são as estratégias, “brilhantemente arquitetadas, mas que não conseguem sair do papel e que nem sempre funcionam quando são implementadas”. Para 39,6%, o problema são as pessoas desmotivadas ou infelizes por não conseguirem desenvolver seu potencial ou pela falta de um significado para o trabalho e 37% apontaram como fonte de preocupação a retenção de talentos.

Na avaliação de 39,6% as causas desses sintomas são pessoas despreparadas. Para 33,5% a origem dos problemas está em um modelo de gestão ultrapassado e 22,8% apontam a falta de lideranças e de integração entre as áreas como principais motivos para esses tormentos empresariais…”

O aviso laranja do outlook chamava a atenção para as milhares de mensagens e ações a serem tomadas naquele mesmo instante. O calendário eletrônico e suas mensagens de compromissos atrasados batia intermitente. Droga, conferência telefônica daqui a 5 minutos… Vazio no estômago com gosto de muitos cafés.

“Nesta pesquisa, 48% dos executivos acreditam que as empresas devem promover muitas mudanças nos modelos de gestão, negócios e de liderança, entre 2013 e 2015. Já para 22,7%, as organizações devem transformar totalmente a forma de gerir seu desempenho e liderar pessoas…”

Enquanto clicava para desligar o aviso laranja e incômodo, a conversa de ontem entrou em sua consciência como onda em praia seca. O ruído da areia molhada de surpresa invadiu o ambiente de ar condicionado e ele pode até ouvir aquele chiado parecido com água em óleo quente, implacável, dominante. Já não podia mais considerar que aqueles minutos de conversa tinham sido somente mais uma típica e vazia conversa corporativa.

Como um doente que se dá conta de seus sintomas, tomou nota de algumas palavras no post-it que estava sobre sua mesa: “Gestão, pessoas, liderança, significado, estratégia.”

Foram longos segundos – o aviso laranja faz toda a dimensão do tempo caber em alguns segundos de piscar intermitente – de contemplação ao amarelo intenso do post-it antes de começar de novo o bailado dos clicks do mouse. Lia mensagens e tomava decisões instantâneas deixando a janela com aquele cartão vermelho gigante aparecendo num canto da tela.

Imagem

Foi interrompido pela onda que voltava drenando a areia e os seus pensamentos:

“Está na hora de reinventar as empresas, valorizando aspectos intangíveis e sepultando de vez os modelos de gestão que aprendemos no século passado”, afirma o cunsultor César Souza, autor do trabalho.”

Colou o post-it na parte superior da tela do notebook, bem próximo do cartão vermelho. A conversa requentada de ontem entrou como um raio em noite quente. Forte, nítido, abafado:

“Não creio que seja possível conciliar tudo o que temos que fazer com horas normais de trabalho, esqueça.” “É necessário uma energia nova, que possa dar muito mais que 100% de dedicação e acelere muito o processo.” “Acho até necessário balancear ritmo e qualidade, mas não dá para esquecer que temos que ser os vencedores, esta é a nossa estratégia! Temos que ganhar mais negócios acelerando todos os nossos processos!”. “Acho que nosso pessoal não está dando o suficiente gás para conseguir o que queremos.”

O post-it agora pulsava substituindo a luz eletrônica para os seus olhos. Pessoas, Gestão… Estratégia…significado…liderança…

O trovão daquele raio finalmente ecoou em sua mente, lembrando do velho automóvel que estava em reformas já há algum tempo. Difícil achar as partes, difícil porque já ultrapassadas. Não havia mais carburador, ou platinado. Não havia mais as lanternas e luzes convencionais. Outro paradigma estava instalado, não mais aquele dos seus 12 anos, quando aquele carro era a tecnologia a ser imitada. Simplesmente aquele modelo ficou velho, não há mais peças; apenas alguns colecionadores fazendo o trabalho histórico de não esquecer que já foi daquele jeito.

O futuro invade como o mar entra sem licença na praia seca, com ruído e tudo. Simplesmente o que era já não é, apenas foi. Na dança dos clicks de seu mouse, riu de si mesmo – já fui. Olhando o post-it pulsante veio um suspiro de alívio, tudo passa. Raios e ondas, modelos de gestão e pessoas, estilos de liderança e ambientes estressados.

Na janela do seu computador aparecia novamente o final da matéria do blog:

“Nesta pesquisa, 48% dos executivos acreditam que as empresas devem promover muitas mudanças nos modelos de gestão, negócios e de liderança, entre 2013 e 2015. Já para 22,7%, as organizações devem transformar totalmente a forma de gerir seu desempenho e liderar pessoas…”

Neste planeta os raios invadem as noites quentes e as ondas invadem as praias secas. Nada será como antes.

(quase) Sempre.

Imagem

15/12/2012 at 16:43 2 comentários

Posts antigos


Agenda

agosto 2017
S T Q Q S S D
« out    
 123456
78910111213
14151617181920
21222324252627
28293031  

Posts by Month

Posts by Category